Introdução
Para o entendimento da chamada S egunda Carta a Timóteo, valem
as observações introdutórias feitas à Primeira Carta a Timóteo: a
semelhança, em termos literários e de horizonte teológico, entre
ambas e delas em relação à Carta a Tito não só a associa ao grupo
de escritos do Novo Testamento que costuma ser denominado cartas
pastor ais, como a situa no ambiente eclesial por elas espelhado. A
preocupação com os falsos ensinamentos e os mestres que os
veiculam é a marca fundamental do escrito, sua razão de ser. Em
lugar de urgências e rupturas com o mundo circundante, próprias de
um horizonte escatológico apocalíptico (ou de radicalismos de sabor
gnóstico ou assemelhado), o escrito tem como perspectiva a inserção
qualificada das igrejas na sociedade mediante o cultivo dos padrões
morais mais elevados por ela estabelecidos e a continuidade, na
história, da presença do Evangelho.
No entanto, a Segunda Carta a Timóteo guarda uma característica
peculiar (o que faz com que alguns continuem a tomar o escrito
como saído da pena de Paulo): o tom assumido pelo autor é mais
intimista, na medida em que ele se coloca na posição do Apóstolo
que vislumbra a iminência da morte (ver a tocante passagem de 2Tm
4,6-8) e, encarcerado e sentindo-se desamparado, roga a Timóteo
cuidados e atenção. E o faz na forma de um testamento literário
(gênero encontrado, por exemplo, nos capítulos finais do
Deuteronômio ou em Jo 13–17), com a intenção de solidificar a
autoridade apostólica como garantia da fidelidade do anúncio